Falar por Sinais
Vive o silêncio
Desfaz o vento
Espero o momento
Podes saltar
Altiva a voz
Quando estás só
Ficas veloz
P’ra derrubar
Tudo do princípio ao fim

Um pouco de mim eu dou
Um pouco de ti eu sou
Imaginar que houve um lugar
Em que eu medou e tu te dás

Pinta o céu em tons cinzentos
Poder correr em passo lento
Guarda segredo do que fizeres
Rejeita o medo, basta entender, seguir e não ceder

Um pouco de mim eu dou
Um pouco de ti eu sou
Adivinhar que há um lugar
Em que serei e tu serás

Poder vibrar, cair, tocar no fundo, depois ensaiar
Salto frontal, enfrentar o mundo, querer lá estar, não poder ficar
Da janela de um quarto, pura sinfonia
A manhã acordara, a casa vazia

A porta fechada, lá for a corria
Barulhos estranhos, eram pingos que batiam

Por uma voz só, leve breve tom, pode ser maior
Um vulto cinzento, de estranho lamento, que a chuva limpou

Entre guitarras ouve-se uivar
Andam lobos à solta, são almas a cantar

No cimo de um monte há raios de luz
Contemplam o mundo, de pé uma cruz

Por uma voz só, leve breve tom, pode ser maior
Um vulto cinzento, de estranho lamento, que a chuva limpou
Já não há mais o vagar dos olhares envergonhados
Agora tudo é discreto, até já esqueces o passado

Se te perguntarem se estive ausente
Vão ouvir dizer que não me vendo nem me dou a toda a gente

Não há ninguém como tu, tão diferente
Não há ninguém como havia antigamente

As pessoas que tu vês no meio das avenidas
Todas procuram assentos, já nem ligam ao dia-a-dia

Os mendigos que se escondem nas arcadas divididas
Fumando definitivos, deitando contas à vida

E se alguém notar a tua indiferença
Diz-lhes que o acaso é mera coincidência

Não há ninguém como tu, tão diferente
Não há ninguém como havia antigamente

Antigamente era diferente – Não há, não há
Antigamente era diferente – Não há, não há

Dancei valsas e fandangos
Fingi os enganos, sem os poder calar
Já vi poetas e profetas, pregando p’las portas aos fracos de lutar

Roubei todos os planos, senti alguns orgasmos
Dei por mim a delirar
Andei por todas as ruas, cobri todas as luas sem as assombrar

Sabes quem eu sou, não te posso dar
Todas as paixões, todos os luares, todos os lugares

São meus, são teus os corpos lavados em suor
São teus, são meus alguma fantasia e algum pudor

Fui rei, bandido dos bandidos o mais enfurecido
P’ra te azucrinar
Limpei tudo à minha volta, deixei a fúria à solta em cada esquina e lugar

Fiquei em todas as paragens, guardei a tua imagem sem te condenar
Rasguei todo o céu aberto, tão longe e tão perto temendo voltar

São meus/ I can get/ são teus/ satisfaction

São meus/ são teus/ são meus lavados em suor
São teus/ são meus/ são teus algum pudor

Desce p’la avenida a lua nua
Divagando à sorte dormita nas ruas
Faz-se de esquecida tão minha e tua
Deixando um rasto que nos apazigua

Sou um ser que odeias mas que gostas de amar
Como um barco perdido à deriva no mar
A vida que levas de novo outra vez
Um mundo que gira sempre a teus pés
Sou a palavra amiga que gostas de ouvir
A sombra esquecida que te viu partir
A noite vadia que queres conhecer
Sou mais um dos homens que te nega e dá prazer
A voz da tua alma que te faz levitar
O átrio da escada p’ra tu te sentares
Sou as cartas rasgadas que tu não lês
A tua verdade mostrando quem és

Entra p’la vitrina surrealista
Faz malabarismo a ilusionista
Ilumina o céu que nos devora
Já se sente o frio, está na hora de irmos embora

Um resto de tudo que possa existir
Mostrando quem és…um resto do mundo
Leva de volta o que não me interessa saber
Gostava de ter o que ainda me resta perder
Feliz se puder, posso até pedir licença
Vício de mulher no auge da inocência

Leva-me ao alto da tua montanha para ver
Acender o lume, ver o resto da lenha a arder
Falas por sinais mas pareces tão distante
Não somos iguais promessas de amor errante

Se o amanhã diferente for, tu voltarás tanto melhor
Noutro lugar ficar atento, ver-te abraçar o teu momento

Ergue bandeiras e goza o novo dia a nascer
Solta as amarras aconteça o que acontecer
Olhas para trás, no teu rosto uma lágrima
Rasgo tão fugaz foi o virar de uma página

Se o amanhã diferente for
Tu voltarás tanto melhor
Leva-me ao purgatório
Ensina-me o mais fácil
Cuidado, pecado
Sim o mais fácil

Julga-me até à exaustão
Faz-me de morto ou vivo

Longe, corre, hoje, foge, p’ra longe, vive, morre

Repete de novo
Fala-me devagar
Não me lamento
Eu aguento, o juízo final

Se ouvires a multidão
Estão fracos, os fortes e os podres da nação

Quando um homem chora é porque apagou
Uma vela branca que se transformou
Quando um homem grita silêncio adiou
A tristeza aflita que de mim voou

Se pudesse ser mais um ao luar
Se soubesse que na rua te ia ver dançar
Ia então dar-te a mão, deixar-me embalar

Quando um homem erra é porque ousou
Transformar a guerra num rasto de pó
Quando uma criança ao peito juntou
Um abraço imenso que tudo mudou

Deitaste tudo a perder
Jogaste o teu melhor ser
Fugiste sem rasto deixar

Andaste sem te encontrar
Ficaste sem querer voltar
Fingiste amar sem gostar

Em cada lugar vou soletrar espera por mim

Ditaste as leis da razão
Molhaste as pedras do chão
Sentiste podias mudar

Choraste só por chorar
Viste alguém tocar
Num tempo que não era o teu

Escritos no ar por desvendar, espera por mim
Que eu vou

Se adormeceres os teus livros vão ficar por ler
E se beberes os sentidos vais perder
E se a noite pode ser longa e não mais acordares
Se o ontem esteve mais perto não o soubeste agradar/saudar

Se caíres a saltar, ninguém te vai levantar
Esconder-te num templo puro para depois te mostrar
Erguer a espada no ar, furar-te o corpo, ver-te sangrar
Tentar dizer as palavras sem nunca as imaginar

Quando acordares de quase nada irás lembrar
O sonho fez-se à estrada na berma vai morar
Falaste no escuro, alguém te escutou
Deste um grito mudo, ninguém se mostrou
Entraste no jogo mesmo a perder
Seguiste um novo rumo, p’ro caso de não te conheceres

Vai em frente
Não fiques mais atrás
Segue a tua mente
Tu és capaz

Ouve um viajante que te resguardou
Dum beco sem saída ele te levou
Cai a neblina teu vulto esconder
Longe do ruído vais aparecer
Hoje acordei quase no fim
Se o sonhei não percebi
Sinto-me perto mais perto tão perto
Sinto-me bem aqui
Será que os dias são todos iguais?
E os loucos por vezes às vezes não falam demais?
Será que um dia quis ser maior
Prevalecer, renascer, pensar ser outra vez

Se a tua voz me chamar, eu estou
Se a lua me guiar, eu vou
Se o teu silêncio me tocar, eu sou parte de ti

Será que um dia eu vou atravessar o deserto e por lá ficar
Rasgar o tecto do mundo, azul, da cor do mar
E voar, voar, voar e não mais voltar*

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