Lado a Lado
Hoje é o dia de todos os dias
Hoje é o dia mais longo das nossas vidas
Põe o teu corpo bem junto do meu
Uma voz escondida disse eu, sou eu!

Cuida de mim, traz-me aconchego, tenho frio
Quero sair, leva-me p’ra um lugar que nunca ninguém viu

Depois será tarde, p’ra sempre mais tarde
Ontem já não conta, já está esquecido
Pedes-me o céu, respiro o teu ar
Desejas meu beijo, faz-me voar

Depois já cansados parecemos ausentes
Dividimos sonhos seremos diferentes
Na cidade fantasma libertamos correntes
Podemos morrer de pé e de frente

Em cada gesto perdido
Tu és igual a mim
Em cada ferida que sara
Escondida do mundo
Eu sou igual a ti

Fazes pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
Pintas o sol da cor da terra
E a lua da cor do mar

Em cada grito da alma
Eu sou igual a ti
De cada vez que um olhar
Te alucina e te prende
Tu és igual a mim

Fazes pinturas de sonhos
Pintas o sol na minha mão
E és mistura de vento e lama
Entre os luares perdidos no chão

Na na na na na na na
Na na na na na na na
Na na na na na na na

Em cada noite sem rumo
Tu és igual a mim
De cada vez que procuro
Preciso um abrigo
Eu sou igual a ti

Faço pinturas de guerra
Que eu não sei apagar
E pinto a lua da cor da terra
E o sol da cor do mar

Em cada grito afundado
Eu sou igual a ti
De cada vez que a tremura
Desata o desejo
Tu és igual a mim

Faço pinturas de sonhos
E pinto a lua na tua mão
Misturo o vento e a lama
Piso os luares perdidos no chão

Conta-me histórias de tempos
A que eu gostaria de voltar
Tenho saudades de momentos
Que nunca mais vou encontrar
A vida talvez sejam só 3 dias
Eu quero andar sempre devagar
Até a ti chegar

Ninguém é de ninguém
Mesmo quando se ama alguém
Ninguém é de ninguém
Quando a vida nos contém
Ninguém é de ninguém
Quando dormes a meu lado
Ninguém é de ninguém
Quando fico acordado vendo-te dormir
Um raio de sol através de um vidro
Faz-me por vezes hesitar
Na vontade de estar contigo
Melodia que paira no ar
Que paira no ar

Ninguém é de ninguém
Mesmo quando se ama alguém
Ninguém é de ninguém
Quando a vida nos contém
Ninguém é de ninguém
Quando dormes a meu lado
Ninguém é de ninguém
Quando fico acordado vendo-te dormir
Sei de cor cada lugar teu
Atado em mim, a cada lugar meu
Tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
Tento esquecer a mágoa
Guardar só o que é bom de guardar

Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
Sem ter defesas que me façam falhar
Nesse lugar mais dentro
Onde só chega quem não tem medo de naufragar

Fica em mim que hoje o tempo dói
Como se arrancassem tudo o que já foi
E até o que virá e até o que eu sonhei
Diz-me que vais guardar e abraçar
Tudo o que eu te dei

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
E o mundo nos leve pra longe de nós
E que um dia o tempo pareça perdido
E tudo se desfaça num gesto só

Eu vou guardar cada lugar teu
Ancorado em cada lugar meu
E hoje apenas isso me faz acreditar
Que eu vou chegar contigo
Onde só chega quem não tem medo de naufragar
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede um pouco mais de alma
A vida não pára
Enquanto o tempo acelera e pede pressa
Eu recuso, faço hora, vou na valsa
A vida é tão rara

Enquanto todo o mundo espera a cura do mal
E a loucura finge que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência
O mundo vai girando cada vez mais veloz
A gente espera do mundo e o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo que me falta p’ra perceber
Será que temos esse tempo p’ra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara (tão rara)
Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma
Mesmo quando o corpo pede
um pouco mais de alma
Eu sei, (eu sei) a vida não pára
A vida não pára não

Entrei fora de mão
Fiz a maior confusão
Correndo no passeio
Foi como um tiro certeiro

Do outro lado da portagem
Vi alguém disse-lhe adeus
Queria eu seguir viagem
Falei-lhe não respondeu

Tudo bem
Está tudo bem
Mesmo que outros nos olhem com desdém
Tudo bem
Está tudo bem
De vez em quando
Todos somos uns bons filhos da mãe
Parei no apeadeiro
Tudo tinha para ver
Vi-te logo a ti primeiro
Aqui ficas a saber

E seguindo o meu caminho
Perco-me antes de chegar
Por ali fico eu sozinho
Com ganas p’ra te encontrar

Posso esconder-me do escuro
Encostar-te à parede
Esbarrar-me contra um muro
Faço trapézio sem rede
Se depois de tudo isto
Não consegues entender
Melhor fora não ter visto
Não te dares a conhecer

Quando me tocas o corpo quieto e frio
Mesmo que o sintas, não dizes nada

Quando me abraças, tudo estremece
Quando me beijas, o escuro enlouquece
Tu não sentes, nem sabes nada

Não dizes nada, se não estou
Ficas calada, se me vou
Tu não sabes nada de nada
Pouco te importa a quem me dou
Nunca lutaste por quem eu sou
Eu estava certo, e tu errada

Quando me aqueces fico nos teus braços
Quando me esqueces perco os teus passos
Nem tu sentes mesmo nada

Quando o teu suspirar rompe o silêncio
Quando te perdes por momentos
Tu não sabes mesmo nada

Quando te toco pela última vez
E o trem arranca depois das três
A hora já estava marcada

Não dizes nada, ficas calada
Tu não sabes nada de nada

Da próxima vez vou estar atento à tua fisgada
Encruzilhar-me na tua bancada
Ficar num canto e não me mexer
Mais uma vez vou seguir todos os teus caminhos
Fugir fingindo que me vês sorrindo
P’ra te fitar quando eu puder

Quero ser personagem de banda desenhada
Onde me assumo numa cena errada
E em que todos me vão descobrir
Quero ficar um pouco mais dentro do teu casulo
Faço de conta que sou teu e tu és meu assunto
Onde me entrego e tu te dás a conhecer
Que ninguém vá onde vou
Nunca estás onde estou
Que ninguém fale de quem falou
Nunca digas quem eu sou

Da próxima vez vou querer toda a tua atenção
Vou esperar que me estendas a mão
E que me deixes cair a seguir

Mais que uma vez puseste à prova o teu sexto sentido
Depois dás o dito por não dito
Como eu gostava de te compreender…

Quero ser a solução do teu problema
Participando nesse mesmo esquema
Que só tu sabes entender

Queria ter só um pouco desse teu talento
Tiro as vogais e ponho os acentos
Estou preparado para o que der e vier.

Agora
Que a chuva cai devagar
Lá fora
E a noite vem devorar
O sol
E tudo fica em silêncio
Na rua
E ao fundo
Ouve-se o mar
Ouve-se o mar
Agora
Talvez te possas perder
Devora
O que a saudade te der
A vida
Leva pra longe pedaços
Do tempo
Deixa o sabor de um regaço
E ao fundo
Ouve-se o mar

Agora
Que a água inunda os teus olhos
E o mundo
Já não te deixa parar
No escuro
Voltam as histórias perdidas
Na alma
Onde não podes tocar
E ao fundo
Ouve-se o mar

Foi por ela que amanhã me vou embora
Ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
Sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
Diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
Em Lisboa fica o Tejo a ver navios
Dos rossios de guitarras à janela
Foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
Que eu passei das minhas contas foi por ela

Foi por ela que eu me enfeito de agasalhos
Em vez daquela manga curta colorida
Se vais sair minha nação dos cabeçalhos
Ainda a tiritar de frio acometida
Mas o calor que era dantes também farta
E esvai-se o tropical sentido na lapela
Foi por ela que eu vesti fato e gravata
Que o sol até nem me faz falta foi por ela

Foi por ela que eu passo coisas graves
E passei passando as passas dos Algarves
Com tanto santo milagreiro todo o ano
Foi por milagre que eu até nasci profano
E venho assim como um tritão subindo os rios
Que dão forma como um Deus ao rosto dela
Foi por ela que eu deixei de ser quem era
Sem saber o que me espera foi por ela

A noite vem às vezes tão perdida
E quase nada parece bater certo
Há qualquer coisa em nós inquieta e ferida
E tudo o que era fundo fica perto

Nem sempre o chão da alma é seguro
Nem sempre o tempo cura qualquer dor
E o sabor a fim do mar que vem do escuro
É tantas vezes o que resta do calor

Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho

Trocamos as palavras mais escondidas
Que só a noite arranca sem doer
Seremos cúmplices o resto da vida
Ou talvez só até amanhecer

Fica tão fácil entregar a alma
A quem nos traga um sopro do deserto
O olhar onde a distância nunca acalma
Esperando o que vier de peito aberto

Se eu fosse a tua pele
Se tu fosses o meu caminho
Se nenhum de nós se sentisse nunca sozinho
Entrei numa casa fria
De portadas entreabertas
Espreitei a ver se te via
As ruas estavam desertas

Os amores já terminados
São ausência, fazem mal
Não me esqueço do recado
Nem de um gesto ocasional
Ao notares que estou mais velho
Passa por mim devagar
E se te olhares a um espelho
Também tu irás notar

Lembra-te de mim…

Os rostos p’ra quem os viu
Já não são como eram dantes
Percorro as margens de um rio
Há já séculos, há instantes

Vivo de vagas memórias
Onde te espero encontrar
São derrotas, são vitórias
Quero agora descansar

Foi há tantos anos, foi há dois mil anos
Que vi no amor o meu Cristo
Que me mostraste um amor imprevisto
Que me falaste na pele e no corpo a sorrir

Meus olhos fechados, mudos, espantados
Te ouviram como se apagasses
A luz do dia ou a luta de classes
Meus olhos verdes ceguinhos de todo para te servir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’áquilo que serei

Filhos e cadilhos, panelas e fundilhos
Meteste as minhas mãos à obra
E encontraste momentos de sobra
Para evitar que o meu corpo pensasse na vida

Teus olhos fechados, mudos e cansados
Não viam se verso, se prosa
O meu suor era o teu mar de rosas
Meus olhos verdes, janelas de vida fechados por ti
Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’áquilo que serei

Pegas-me na mão e falas do patrão
Que te paga um salário de fome
O teu patrão que te rouba o que come
Falas contigo sozinho pra desabafar

Meus olhos parados, mudos e cansados
Não podem ouvir o que dizes
E fico à espera que socializes
Meus olhos verdes
Boneca privada do teu bem estar

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Vou daquilo que fui pr’áquilo que serei

Sou tua criada boa e dedicada
Na praça, na casa e na cama
Tu só me vês quando vestes pijama
Mas não me ouves se digo que quero existir

Meus olhos cansados ficam acordados
De noite chorando esta sorte
De ser escrava prá vida e prá morte
Meus olhos verdes
Vermelhos de raiva para te servir
A tua vontade, justiça, igualdade
Não chega aqui dentro de casa
Eu só te sirvo para a maré vaza
Mas eu já sinto a minha maré cheia a subir

Meus olhos cansados abrem-se espantados
Prá vida de que me falavas
Pra combater contra os donos de escravas
Meus olhos verdes
Que te vão falar e que tu vais ouvir

Mariazinha fui, em Marta me tornei
Sei aquilo que fui e que jamais serei
Mariazinha fui, em Marta me tornei
Sei aquilo que fui e que jamais serei

Já um escuro vem do horizonte
Ou a luz se perde do olhar
São os campos perdidos e os montes
Que se estendem pela noite devagar

São tantos os caminhos e os dias
Tantos como a saudade que se tem
Talvez um sabor leve de maresia
Talvez lembrança do sabor de alguém

Ai Lisboa, estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido

Será do luar o brilho intenso
Será do olhar de quem eu quero
Que faz ir-se perdendo ao longe o escuro
E faz ir-se calando o desespero

Enquanto o dia vai
Enquanto a noite vem
E um desassossego
Acorda alguém
Uma canção distante
Lembra outro sonho e outro olhar
Ai, se toda a saudade
Pudesse enfim acalmar

Ai Lisboa, estendida sobre o rio
Ai Lisboa de mil amores perdidos
Só de quem puder sentir
Que há um mar em ti escondido

Vai caminhando desamarrado
Dos nós e laços que o mundo faz
Vai abraçando desenleado
De outros abraços que a vida dá

Vai-te encontrando na água e no lume
Na terra quente até perder
O medo, o medo levanta muros
E ergue bandeiras pra nos deter

Não percas tempo, o tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento como um veleiro
Solto no mais alto mar

Liberta o grito que trazes dentro
E a coragem e o amor
Mesmo que seja só um momento
Mesmo que traga alguma dor

Só isso faz brilhar o lume
Que hás-de levar até ao fim
E esse lume já ninguém pode
Nunca apagar dentro de ti

Não percas tempo, o tempo corre
Só quando dói é devagar
E dá-te ao vento como um veleiro
Solto no mais alto mar

Acende um cigarro, olha p’ra mim
Sentada a meu lado toca-me assim
Envergonhado estou-me a sentir
Posso estar farto mas fico por aqui

Há quem queria pôr-me em cima de um altar
Há quem diga que sou a sorte e o azar

Ando louco, tão louco, louco por ti
Fico louco, tão louco, fora de mim

São raros os casos em que eu não tenha de me cruzar
Selamos segredos, por vezes dão que falar
Bebe-se um copo, um convite para jantar
Salta-me à vista esse teu rebelde olhar

Ando louco, tao louco, louco por ti
Fico louco, tao louco, fora de mim

Sorriso nos lábios, tenta-me seduzir
Fico nervoso, daqui quero sair

Há gente que espera de olhar vazio
Na chuva, no frio, encostada ao mundo
A quem nada espanta
Nenhum gesto
Nem raiva ou protesto
Nem que o sol se vá perdendo lá ao
Fundo

Há restos de amor e de solidão
Na pele, no chão, na rua inquieta
Os dias são iguais já sem saudade
Nem vontade
Aprendendo a não querer mais do que o
Que resta

E a sonhar de olhos abertos
Na paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados

Outro dia lado a lado

Há gente nas ruas que adormece
Que se esquece enquanto a noite vem
É gente que aprendeu que nada urge
Nada surge
Porque os dias são viagens de ninguém

A sonhar de olhos abertos
Nas paragens, nos desertos
A esperar de olhos fechados
Sem imagens de outros lados
A sonhar de olhos abertos
Sem viagens e regressos
A esperar de olhos fechados
Outro dia lado a lado

Aprende-se a calar a dor
A ternura, o rubor
O que sobra de paixão
Aprende-se a conter o gesto
A raiva, o protesto
E há um dia em que a alma
Nos rebenta nas mãos

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